sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Clichê Millenial

O vinho suave desce rasgando a garganta, ás duas e dois da manhã, espero.

Metade da metade da vida de alguém, esse alguém bebe vinho as duas e três da manhã

Dormir não é uma opção.

Misto de nostalgia e dor, um tempo que de tão longe mora ao lado.

As musicas transportam, as imagens me levam pra vinte anos atŕas as duas e quatro.

O vinho desce melhor o dedo desliza entre letras que juntas tem o poder de aliviar.

Eu não sinto a noite passar quando tenho cinco anos e estou assustada com a propaganda da televisão

eu não sinto a noite passar quando estou tão perto da metade da metade da minha vida

e não tenho nada além de outros.

As duas e cinco a garrafa de vinho está no final. Ouço musicas da época do CD em uma plataforma digital. Sinto falta de tanta coisa, sinto falta de quem me ama. Me sinto só.

Minha lágrima escuta meu lamento e vem me fazer companhia.

É sexta a noite, jantei Doritos, sozinha.

Ele dorme, longe.

Já é duas e nove, quero colocar mais vinho na taça pela metade, ele não está tão suave.

O sinto na língua, não sei por que queima.

Insisto em tentar ser quem não sou.

Perdida, de novo. Meu celular quase sem bateria.

Toda vez que acho que encontrei meu caminho eu falho. Não quero mais falhar

Bagunça, eu sou estranhamente dramática, performática dentro de mim.

É como se a vida fosse uma grande peça, uma novela do Manoel Carlos.

Não. Mais vinho por favor, eu me peço. É vinho barato e desce queimando.

Ouço musicas tristes dos anos noventa.

Eu não era triste nos anos noventa.

Dois mil e vinte me trás pouca coisa pra me alegrar.

Meu pais em colapso, pandemia mundial.

Ouço música triste dos anos noventa pra fugir.

Eu sou a merda de um clichê.

É eu sou.

Eu nem gosto dessa musica que toca as duas e dezoito, o vinho me faz aturar.

Mudei varias pra frente, achei uma que gosto. Triste, dos anos noventa, assim como eu.

É eu sou a porra de um clichê millenial.